sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

BLIND DATE

Traz na lapela do sorriso um beijo
para que a minha pele te reconheça
E deixa que esvoace algum desejo
sobre o teu ombro, como uma promessa

Não faças nada do que combinámos
que eu quero descobrir-te lentamente
num jogo sem passado nem presente
futuro apenas, tal como o sonhámos

Liberta-te de amarras e feitiços
abre, por hoje, as asas de condor
Farei o mesmo. Seremos noviços

em claustros de silêncio e de esplendor
filhos de um deus que acolhe os insubmissos
virgens de medos e de toda a dor.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

À FLOR DA PELE

Toco, teço e entrelaço
Com dedos de descobrir
Lanço redes num abraço
À flor da pele me desfaço
Na vertigem de sentir
Tudo é matéria, se é tempo
De epidérmicas razões
Danço num sopro de vento
Rasga-me cada tormento
Gelam, queimam, emoções

E todavia, invisível
Eterno e primordial
Corre o rio do intangível
Imperioso, indefinível
Matriz de tudo, afinal

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A JORGE AMADO

Na biblioteca do meu pai
em lugar de destaque, bem à mão
estão os mágicos livros (num eterno entra e sai)
de um Jorge sempre Amado, sempre lido
em cada geração
e estranhamente nunca proibido,
nem nos tempos da grande agitação
de quatro menininhas a crescer...
(e como então gostávamos de os ler!)
Com um mar, com um mundo de permeio
entre a pacata vila à beira Tejo
e esse imenso Brasil agreste e doce
viveu connosco sempre Jorge Amado
comeu, dormiu connosco, passeou-se
por mesas de madeira e azulejo
e camas vestidas de bordados
como se um de nós fosse...
Fez-nos chorar e rir em devaneio
sonhar, pisar areias sem idade
sentir os cheiros de sua cidade
embriagar de cores, de sensações
entre coronéis e "negas" dos sertões
e navegar a bordo de paixões
sem sombra de pecado.
Por tudo isto, querido e velho amigo
é com toda a ternura que te digo:
Em nome de nós todos, obrigado!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

LOHENGRIN (Prelúdio, I acto)

Melodia infinita
Haikai mais-que-perfeito
Lírico anil de violinos, flautas
e auroras boreais

domingo, 10 de fevereiro de 2008

NADA TEU

Não quero nada teu
a não ser tudo:
o aço mais temido
e o veludo
macio, apetecido
que sempre me prendeu.
Como vês, peço pouco:
as tuas horas de alma
mais íntimas, sagradas
longe da agitação
e aquelas madrugadas
que adivinho em sufoco
e só a minha mão
suaviza e acalma.

Quero o teu paraíso
mais secreto e remoto
quero o mar mais ignoto
que o teu sonho encontrou
e invadiu o teu riso
nesses raros instantes
em que se abandonou
ao deus dos navegantes.

Quero as tuas mentiras
cobardias, fracassos
os desatados laços
os nós inconfessáveis
abismos onde atiras
momentos de tortura
p’ra que a minha ternura
os torne suportáveis.

Não, não quero nada teu
que não me conte
a mais pura verdade
dos teus medos
a cor dos teus segredos
que não têm idade
o limbo, o gineceu
a primitiva fonte
que um dia te verteu
e deixou nos meus dedos
um gosto de saudade...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

CONSELHO A UM AMIGO (APAIXONADO ?)

Deixa-te de porquês. O quando, o onde
e o como?… Não mais que literatura!
Despe de vez o medo que se esconde
entre as frias cambraias da lisura.

Ou então não fales de paixão.
Chama-lhe, se quiseres, melancolia.
Que jamais o tropel de um coração
bate ao compasso da diplomacia.

Que sabes tu das ávidas razões
que a razão desconhece? Da contenda
que nem sempre se trava nos salões
e quase nunca tem punhos de renda?

Não aprendeste nada sobre gente?
E Shakespeare, e Mozart, e Fellini?
Alguém te sonha chocolate quente,
enquanto deitas gelo no martini!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

CONSCIÊNCIA

Insiste
grita-me essa voz
desde sempre essa voz
que de dentro me vem
que eu sou tu
e ele
e nós
e todos
somos ninguém.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

FLIRT

Um olhar, um sorriso
brincas tu
brinco eu
Quem não tiver juízo, perdeu...

Um sabor, um aceno
provas tu
provo eu
Quem beber o veneno, morreu...

Ai esta brincadeira, este arame sem rede...
Esta chuva ligeira que nunca mata a sede...
Ai de quem não souber que o segredo, o mistério
é não levar a sério o que é só um prazer...

Com champanhe na voz
falas tu
falo eu
Se falámos de nós, não pareceu...

Em matizes de charme
brilhas tu
brilho eu
Atenção, se um alarme apareceu...

Ai este jogo antigo, traiçoeira delícia...
Entre sinais de perigo é preciso perícia...
Quem brincar com o fogo não se deixe queimar:
Prometer e não dar é a regra do jogo!

sábado, 2 de fevereiro de 2008

AMOR? NÃO JURARIA...

Amor? Não juraria...

E no entanto
cada centímetro de pele se reconhece
se anima, se festeja
nas mãos que, impacientes, se procuram
de esperar-se tanto
nos insubmissos braços que aventuram
enleios, golpes de asa
na noite que amanhece
e cada gesto é um chegar a casa
ao fim do dia

Mas não. Amor, não creio que seja...

Porém
um só olhar detém
o secreto poder do universo
quando o todo e as partes se refundem
o verso e o reverso
por mágicas artes se confundem
e num momento
o caos ganha sentido
e tudo fica bem

Mas amor? Ah, duvido...

Contudo
é ancestral o nosso entendimento
muito anterior a nós
esta pertença
transcende-nos a íntima harmonia
do rio que corre, lento
subterrâneo e mudo
de caudal indomável, que se adensa
num marulhar sem voz
que o só correr diz tudo
e vem o seu silêncio da memória do tempo

Amor? Não, não diria...
E todavia...